Naiara Azevedo - ''Pai Solteiro'': (a menina, a música e a praça)

*Eduardo Martins


A questão que vou levantar aqui diz respeito a arte, e nesse caso, estou partindo do princípio de que não existe arte neutra. Ou se está dizendo claramente para se fazer uma determinada coisa ou, o que se deixa de dizer, fala mais alto. Nesse caso proponho que se pense no exemplo do filme "O grito do silêncio" - ali vemos um feto que "se defende", que "grita", mas "não vemos", nesse ato mesmo de ver, é que estamos "vendo" tudo isso contra um pano de fundo de um espaço discursivamente pré-construído. Um outro exemplo, quando um inglês racista diz que há muitos paquistaneses "em nossas ruas”! Como - de que lugar - ele vê isso; ou seja, como se estrutura seu espaço simbólico para que ele possa perceber como um excesso perturbador o fato de um paquistanês andar por uma rua de Londres?

Pensemos na dominação masculina, o que fundamenta essa "natureza das coisas", o que fez esse "real" ser internalizado, simbolizado, provido de Sentido. Uma música tem esse poder.

Um dia desses, fazendo minha corrida habitual, numa certa praça, ouvi uma menina, de uns 14 ou 15 anos de idade cantando o refrão de uma música que vinha do seu smartphone, algo mais ou menos assim: "sou mãe solteira com muito orgulho, não tenho vergonha". Era o que eu ouvia enquanto continuava a correr e, na próxima volta, a mesma menina, cantando o mesmo refrão. O episódio me deixou pensativo em toda aquela situação. A menina, a música, a praça - o horário, 19 h, a maneira como ela entonava a voz e cantava com entusiasmo.

Com aquela imagem na cabeça, chegando em casa fui dar uma googleada para saber de que música se tratava. Descobri que a cantora se chama Naiara Azevedo e a música "Mãe solteira". De posse da pérola, lá fui eu analisar aquela letra, em virtude desta representar uma situação peculiar para mim.

Analisando o refrão; aqui a letra me preocupou quando a cantora diz que teve um relacionamento e dele nasceu uma criança, porém o macho magicamente desaparece na canção; o pai do filho dela, ex-marido, simplesmente é desobrigado a ser pai! Talvez agora eu comece a entender a lógica da letra; na visão de mundo dela em afirmar haver ex-marido; também o desobriga das funções de pai. A artista, nesse caso, estaria acabando de fundar um novo conceito o de ex-pai, nesse caso o homem que abandonou seu filho e a mulher.

A leitura que se pode fazer é a de que a artista aceita tacitamente o papel mítico e romântico de ser mãe sem o pai, como algo natural, como uma dádiva dos céus – afirmando ainda que, a criança abandonada pelo pai é um "presentinho", aqui eu não sei até onde vai a ironia da mãe. Mas ao que tudo indica o uso do diminutivo é apenas para se referir a uma criança pequena – muito possivelmente ainda um bebê, dado que dorme na cama com ela.

Volto agora à situação em que fui "apresentado" à música, à menina, à idade, o lugar - uma praça de periferia – e o horário.

Retorno também a discussão inicial e volto ao exemplo do inglês racista que se incomoda com a presença de um paquistanês nas ruas de Londres. O que um caso tem a ver com outro, talvez nada, talvez tudo. Nada; porque o homem é um inglês e racista e a menina é brasileira e muito possivelmente não seja racista. Tudo; em ambas as situações eles estão lendo a realidade social a partir de lugares estabelecidos, determinados e aceitos como tal, é a “visão de mundo” de cada um deles que diz que eles estão certos, muito embora o inglês racista esteja errado aos olhos dos humanistas. Do lado da menina, uma jovem periférica consumindo cultura de massa, podendo, não obstante, ser influenciada por ela e criar parte de suas referências, o que poderia levá-la a mitificar um problema social muito sério; o abandono dos (as)  filhos (as) pelos pais, pode ainda estar estimulando um menina ao ato de ser mãe sem a presença masculina na vida dela e da criança. Avançando um pouquinho mais na reflexão, poder-se-ia até dizer que naturaliza o abandono e se aceita essa condição violenta, criminosa.

Valendo-me da teoria de que o inglês tem uma carga de valores, que o faz ver (ler) o paquistanês como um invasor. Reporto-me a menina que está ouvindo (lendo) a arte que diz que se "orgulha" de ser “mãe solteira”. O próprio conceito (mãe-solteira) já carrega intrínseco a ele a negatividade e preconceito socialmente estabelecido, ao ponto de a cantora precisar ficar justificando, por várias vezes – no refrão, a sua condição de mulher abandonada. Tendo sempre que justificar sua condição de abandono com o filho. É acuada a representar um papel social que a coloca em nível de desvantagem em relação a um outro homem.

E o mais curioso é que a canção se esquece de enquadrar o pai dessa criança, talvez para reforçar o sacerdócio da maternidade e o sofrimento necessário com a ausência do homem. Ou pela falta de forças sociais e jurídicas que obrigue esse indivíduo a cumprir o papel de pai que lhe cabe; como a guarda compartilhada, obrigando o sujeito a ser “pai solteiro” e liberando a mulher para tocar sua vida livremente.

Por fim, a letra da música me deixou meio perplexo com a reprodução do machismo estrutural nela contida. Mas também pela violência simbólica que ela carrega. A canção ao dizer que existem ex-mamorado e ex-marido, também criou um novo personagem; o de ex-pai - figura masculina - que engravida uma mulher e cai fora.

Assim, não existe arte neutra, como disse no começo desse texto, a letra dessa canção cumpre uma função ideológica que nem mesmo a cantora se deu conta; cumpre a função de reproduzir a mitificação e o sacerdócio das mulheres abandonadas pelo homem assim que a criança nasce. Ainda contribui para afirmar a tradição androcêntrica, patriarcal de “mãe solteira”.

Finalmente, me recusei aqui a usar o conceito de “mãe solteira”, em que pese o título da música, (de muito mal gosto). Talvez a cantora pudesse renomeá-la como “pai solteiro”.

 

*Professor adjunto da UFMS, campus de Nova Andradina, curso de História.

Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Jornal da Nova

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